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Estado de (des)Graça

todas sabemos que a gravidez é um estado de graça.

22.Mai.19

O quarto do segundo filho

No primeiro filho às 20 semanas já tinha o quarto prontinho, cama de grades com uma colcha bonita e paredes pintadas. Obriguei o meu marido a fazer umas riscas beges na parede, milimetricamente perfeitas porque não queria gastar dinheiro em papel de parede. Um quarto bonito e pronto a receber o primogénito com muda fraldas fofinho estrategicamente colocado. 

Engravidei segunda vez e nunca fiz grandes planos para o quarto do Matias, fui buscar o berço do primeiro, coloquei no meu quarto e esta feito o ninho. O muda fraldas (que não é mais do que uma almofada) foi colocado na casa de banho e por lá continua. Aos 6 meses estava na hora de sair do nosso quarto, pusemo-lo transitoriamente no quarto das "visitas" que é como quem diz um quarto vazio com uma cama para as noites em que a empregada lá ficava a dormir. E por lá ficou, tem 18 meses e continua no quarto das visitas. Todos os fins-de-semana pensamos, vamos preparar o quarto do irmão para colocá-lo lá. E todos os fins-de-semana adiamos. O bebé Matias não tem quarto, tem um berço e dorme lá muito bem. 

22.Mai.19

E nós?

Os filhos são o melhor de nós, todos os dias olho para eles e não consigo deixar de pensar na sorte que tenho por os ter. Todos os dias penso que não saberia viver com a perda de algum deles e que se isso acontecesse só prosseguia por causa do outro. Mas tanta coisa muda por causa deles, as rotinas estabelecidas, as correrias de todas as manhãs e os despertares sem excepção às 07h da manhã levam que andemos sempre cansados, irritados e sem paciência.

Sinto-me não raras vezes uma panela de pressão, sempre a arder, pronta a explodir. Chego a sexta-feira KO mas sábado espera-me um despertar, normalmente ainda mais cedo que durante a semana. Tentamos entretê-los durante 3 horas, porque ninguém vai para a rua antes das 10h, e às 13h já estou a rezar para que chegue rápido a segunda-feira.

E assim o tempo vai passando e nós sempre a desejar pelo dia a seguir, mas num ápice eles serão crescidos e ter-se-ão feito à vida e nós? O que fizemos? E eles? Farão o mesmo que nós ou o mundo já estará outra vez completamente diferente?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

07.Mai.19

A história da menina das pestanas

Ela já tinha sido casada, tinha estado grávida e perdido a bebé a dois dias do parto. Sim, com 40 semanas, depois de uma discussão mais acesa com o marido, em que a tensão disparou, o coração da sua bebé deixou de bater. Ela sentiu que algo não estava certo quando ao fim de umas horas não sentia a bebé a mexer. Deu entrada no hospital e teve o parto da sua bebé sem vida. 

Recomeçou junto de um outro homem, veio para Portugal e foi aí que me cruzei com ela. Falávamos muito naquelas duas horas em que ela me fazia as pestanas. Eu já tinha o meu primeiro bebé comigo e iniciava-me na caminha da infertilidade, ela não tinha a bebé dela com ela e também iniciava esse percurso. Eu com recursos recorri a uma clínica privada, ela sem a mesma sorte foi esperando pelo sistema nacional de saúde. Sei que tentou muitos anos, 5 ou 6. Por circunstâncias profissionais ela acabou por sair do sítio onde me atendia. Foram 3 anos de conversas de 3 em 3 semanas. Várias vezes ia ao whatsapp para lhe mandar uma mensagem a perguntar como estava, quando consegui finalmente engravidar do Matias quis contar-lhe mas achei que a dor de ela não conseguir só ia aumentar com o facto de eu ter conseguido. Sei o que isso é e não crítico, mantive-me calada.

E ontem, sem que tivesse à espera recebi uma mensagem dela, no whatsapp também. Também ela se calhar abria e fechava a minha "janela". Dava-me os parabéns porque via pela fotografia que eu tinha tido mais um bebé e dizia-me que o milagre dela tinha acontecido quando já tinham atirado a toalha ao chão e prosseguido sem o sonho. Ela está grávida de 16 semanas, e eu desejo do fundo do coração que tudo corra bem.