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Estado de (des)Graça

todas sabemos que a gravidez é um estado de graça.

12.Abr.19

Do medo irracional

De morrer ... não sei precisar quando este medo começou, mas foi surgindo em pequenas paranóias, que depois eram exponenciadas ao máximo. Reflectiu-se em ataques de pânico que apareciam muitas vezes já deitada, começava na sensação de aperto no peito, falta de ar e depois aquela sensação de estar qualquer coisa de muito errada. Não raras as vezes o meu marido tinha de ficar ali ao meu lado até eu adormecer. Por várias vezes pedi que me acordasse durante a noite só para ter a certeza que estava viva. Reflectiu-se no medo de desenvolver determinadas doenças (cancro da mama por exemplo) que faz com que me foque nessas partes do corpo onde tenho medo de haver algo errado. Já perdi a conta à quantidade de ecografias que fiz, ressonâncias porque nunca fico satisfeita. Tenho tendência para desenvolver quistos (aliás já removi um do ovário) e isso não acalma em nada os meus receios. 

Viver assim não é fácil, e se há alturas que consigo ser racional, outras há em que perco a noção do sensato ao ponto de me descontrolar. E quem sofre deste tipo de medos saberá o quão o nosso corpo responde fisiologicamente ao medo aterrador. 

Ganhei coragem para escrever sobre isto, que na minha cabeça é assunto muito mais tabu que a porcaria da infertilidade. 

09.Abr.19

A teima do 3º (continuação)

A vontade começou a atenuar. Já não fico arrepiada quando vejo bebés. Já não sonho com barrigas e conforme o Matias vai crescendo e ficando na idade das birras e da vontade própria, abano a cabeça e penso: és doida se te metes noutra.

Não tenho ajuda familiar. A minha mãe não tem paciência, a minha sogra pouca saúde física tem, estamos por nossa conta. Se queremos jantar fora temos de os deixar a dormir, e pedir aos meus sogros para vir. Se queremos ir passar um fim-de-semana fora a dois é quase impossível de planear, se queremos dormir apenas uma noite, é a pagar e a empregada aguenta as pontas.

A vida de casal é cada vez mais a 4 e o 2 anda ali numa linha muito ténue. A isto junta-se a parte da recuperação, dos 20 kg a mais, da barriga enorme e tudo o resto enorme, da licença de maternidade numa fase em que estou bastante estável a nível profissional não contando que posso sempre ter de passar por uma baixa.

Somando tudo são mais os contras que prós e, portanto, projecto 3º fica adiado por tempo indeterminado.

A vida não está para filhos, Portugal não está para filhos, lá em casa estamos para os dois que já existem e que já são muito ricos e intensos. Por enquanto ficamos assim.

08.Abr.19

A minha cama não é tua

Sou contra os meus filhos partilharem cama comigo. O Henrique não partilhou apesar de ter dormido umas 5 ou 6 vezes na nossa cama, e o Matias dormiu duas vezes. Sou a favor das rotinas de sono, alias tudo na minha vida é feito de rotinas. Comigo funciona mas sei que não funciona com toda a gente.

O Matias janta todos os dias às 19h50 e vai para a cama às 20h30. O Henrique janta às 20h00 e vai para a cama às 21h00. Tanto um como o outro adormecem sozinhos, e normalmente em menos de dois minutos. Treinei-os para isso, sim treinei mesmo. Sabem que a cama é para dormir de noite (e no caso do bebé nas sestas). O sono em todas as idades é essencial e nestas em que se estão a desenvolver, ainda mais. Até comigo sou maníaca, tento dormir sempre as 8h da praxe. É essencial para estar equilibrada e adivinhe-se: MAGRA. Sim, descobri que desde que durma 8 horas o meu metabolismo mantem-se no ponto óptimo e não engordo (claro que mantenho a minha dieta diária).

05.Abr.19

E agora o outro lado

Encaramos isto de ser mãe como o melhor do mundo, olhamos para os rebentos e temos vontade de apertá-los em abraços infinitos e de esborrachá-los com beijos. Mas existe o outro lado, existe sempre.

Ser mãe é deixar de ter uma entidade própria, és a mãe do A e B, não és a Gracinha. É deixar de estar na casa de banho sozinha. Posso dizer-vos que tomo banho todos os dias com os olhos grandes do Matias pregados em mim, ponho rímel com ele ao colo e estico o cabelo a cantar “a barata diz que tem!”.

Não me lembro da última vez que saí à noite, talvez em 2013. Fui uma vez à Rua cor-de-rosa em 2015 ao bom e mau não sei o quê e tive de sair para vir desmaiar à porta tal era o calor que lá estava dentro. Costumo ir ao Purista com o meu marido mas antes do jantar. De tal forma que já fomos lá beber Mojitos e depois fomos para casa porque comemos tantos amendoins que já não havia fome para ir ao Sea Me. Isso, e porque já estávamos com os copos e copos com estes anos de maternidade dá é sono.

Podia dizer que é da idade, mas só tenho 33 anos. Podia culpar-me da falta de vida social com adultos. Mas reparem, acordo todos os dias com um despertador chamado Matias, nunca depois das 07h. Todos os dias desde há 15 meses. Os meus sogros ficam com ele para eu ir sair à noite, mas na manhã seguinte quem lá está para dar o biberão é esta aqui que se foi enfrascar. E, portanto, não vou. Prefiro dormir. A culpa é destas criaturas diurnas cujas camas ganham picos mal o sol nasce.

 

03.Abr.19

Criar com lixo

No evento da escola do Dia do Pai e inspirados na arte de Bordalo II, o objectivo era criar qualquer coisa com lixo. A arte de criar através de desperdícios: garrafas de coca-cola, copos de iogurte, rodas de carrinhos de brincar, carcaças de carros partidos, cápsulas de café, juntamente com cola e latas de spray vai de criar qualquer coisa. 

É com este entusiasmo que eles aprendem e apreendem. Vão construindo um sentido de sustentabilidade mesmo que a palavra seja vazia de valores para eles. As escolas de hoje estão de parabéns por os pôr em sentido desde pequeninos. 

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(o dinaussauro Bordalo)

02.Abr.19

Perguiçar por aí

Não tenho escrito nada. Todos os dias abro a página e volto a fechar. A vida arrasta-se numa doce rotina. O bebé pequenino já anda e corre. Continua delicioso, gordinho e bem disposto. O meu trabalho não pára, os dias fogem-me pelas mãos, corro a toda a hora sempre com alguma coisa para fazer. Levanto-me religiosamente às 06h50, com a casa ainda silêncio, bebo um café e fumo um cigarro, sozinha, é o único momento do meu dia em que estarei completamente sozinha, 10 minutos que me sabem por anos de vida. A seguir a isso é a correria típica, mas só saiu de casa por volta das 09h30. Agora ele já chora, vem de braços estendidos até ao elevador. Diz mamã. Já sabe que quando calço os sapatos está na hora da despedida. Também ele quer calçar os dele (ou os meus) e ir para a vida. O maior continua pequeno, precisa tanto de nós como nós dele. Dá vida a casa e quando dorme fora todos ficamos um bocadinho mais tristes. A casa fica serena, mas num silêncio que já não estamos habituados.

As horas transformam-se em dias, os dias em semanas e as semanas em meses. 15 meses, 4, 33 e 37 anos. E o tempo vai passando, nesta doce rotina, nesta correria sem meta definida.